Vinte anos após a Eco-92, a maior conferência já promovida pela
Organização das Nações Unidas (ONU), o Rio de Janeiro será novamente palco das
discussões sobre sustentabilidade, com a realização da Rio+20. Enquanto no
primeiro evento chefes de Estado do mundo inteiro se reuniram para assinar
documentos com foco na preservação do ambiente, pesquisadores ouvidos pelo
Terra criticam a falta de empenho do governo brasileiro para propor uma pauta
ambiental para a conferência que ocorrerá em três meses, nos dias 20, 21 e 22
de junho.
Para José
Goldemberg, físico e professor da Universidade de São Paulo (USP), o meio
ambiente ocupa um papel secundário na conferência. “O esboço do que será
discutido na Rio+20 mostra claramente a linguagem da conferência, muito mais
focada no desenvolvimento social. O governo brasileiro tem grande
responsabilidade sobre isso, à medida que quer dar destaque aos programas
sociais de Lula e Dilma”, afirma o pesquisador. Segundo ele, é fundamental
garantir avanços para a população mais pobre, mas essa mudança precisa estar
associada a uma reformulação do modelo produtivo e na forma de consumo.
O professor
Elimar Nascimento, do Centro de Desenvolvimento Sustentável da Universidade de
Brasília (UnB), concorda que o foco predominante da Rio+20 é o social, e não o
ambiente. “O governo brasileiro é absolutamente desenvolvimentista, não tem uma
preocupação preponderante com as questões ambientais. Mas isso é uma pena, pois
teremos uma conferência esvaziada, sem discutir os desastres naturais que cada
vez mais afetam a população”, afirma. Segundo Nascimento, a inclusão social é
um fenômeno mundial que precisa vir acompanhado da consciência sobre a
necessidade de se reduzir os gases do efeito estufa e de uma política que mude
a forma de consumo.
“Precisamos
integrar as pessoas, mudando suas formas de vida, sem incentivar o consumo como
é feito hoje”. Ele acredita que a proposta de uma economia verde não responde a
essa necessidade. “Ela não contempla a consciência sobre o limite dos recursos
naturais. Não adianta reduzir a quantidade de matéria-prima usada para criar um
produto se o consumo daquele produto só aumenta. Os recursos naturais são
finitos e o desenvolvimento sustentável deve partir desse princípio”, diz o
professor da UnB.
Segundo
Goldemberg, as outras conferências sobre o clima não conseguiram avançar no
estabelecimento de metas para a redução dos gases do efeito estufa, e a Rio+20,
que deveria propor isso, esvaziou debate. “Os cientistas apontam para este
problema há pelo menos 40 anos e o debate ainda não avançou. Precisamos levar
em conta que se medidas urgentes não forem tomadas, a situação do planeta vai
ser cada vez pior. Quem vive na Grécia hoje está preocupado com a crise
econômica, mas quem está na Tailândia está morrendo em baixo da água por causa
das enchentes. Por isso a nossa preocupação de que esse importante espaço para
o debate e estabelecimento de metas concretas não se torne apenas um lugar para
tirar fotos”, completa.
Apesar do
descontentamento com a pauta da conferência, Goldemberg acredita que ainda há
tempo para mudar os rumos do evento. Com cientistas de todo o mundo, ele
elaborou um documento que será entregue à ONU com o objetivo de defender que a
Rio+20 seja uma conferência ambiental, já que as condições que dão suporte à
economia e o desenvolvimento social estão se deteriorando. “O aumento previsto
de 3°C na temperatura da Terra vai provocar mudanças significativas no nosso
modo de vida e nós estamos caminhando em direção contrária ao objetivo de
minimizar isso. Ainda dá tempo de fazer alguma coisa”, diz. O manifesto dos
cientistas será entregue durante uma reunião preparatória para a conferência,
no fim deste mês, em Nova York.
‘Rio+20 é tão importante quanto a Eco-92′ –
Yana Dumaresq Sobral, assessora para a Rio+20 do Ministério do Meio Ambiente
(MMA), não concorda que a pauta de discussões para o evento esteja esvaziada
das discussões ambientais. “A Rio+20 é uma conferência tão importante quanto
foi a Rio92 (também chamada de Eco-92), embora seja possível listar várias
diferenças em termos de mandato e objetivos esperados para cada uma delas. Por
um lado, a Rio92 foi um marco na conclusão de processos; ela trouxe inovação
para a ordem jurídica internacional com a assinatura das três convenções sobre
clima, biodiversidade e desertificação. Por outro lado, a Rio+20, tem um
caráter político e se espera que ela possa iniciar uma nova etapa na agenda
internacional para o desenvolvimento sustentável. Não reabriremos a discussão
sobre o que já se acordou, mas a partir do que já está sedimentado,
avançaremos”, afirma.
Ela ainda
acredita que o evento será muito importante para definir metas globais para o
meio ambiente. “A Rio+20 tem potencial para o fortalecimento do
multilateralismo, que tem estado abalado em nossos dias. Em 1992, o mundo
enfrentava uma crescente euforia pelo multilateralismo. A marca desse momento
histórico foi a queda do muro de Berlim e o consequente fim de uma era bipolar.
Hoje, o mundo carece desse mesmo espírito de união da comunidade internacional,
apostando no multilateralismo como forma ideal para solução dos principais
desafios globais”, defende. (Fonte:
Angela Chagas/ Portal Terra)
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