Apesar
do volume de empréstimos desembolsados para práticas sustentáveis no campo ter
dobrado na safra agrícola 2011/2012, os níveis de acesso às chamadas linhas
verdes ainda são irrisórios. A conclusão é do estudo Financiamento
Agroambiental, lançado pelo Instituto Socioambiental (ISA), que aponta gargalos
na operacionalização desse incentivo econômico, a partir de entrevistas com 87
produtores e três agentes financeiros, desde 2010.
De
acordo com a engenheira agrônoma Léa Vaz Cardoso, assessora do ISA, o
financiamento impõe desafios tecnológicos ao produtor brasileiro. O carro-chefe
dessas linhas de crédito é o Programa para a Redução de Emissão de Gases de
Efeito Estufa na Agricultura (ABC), lançado em 2010, que propõe modelos mistos
de produção.
“As
linhas financiam tecnologias um pouco mais complexas que as tradicionais, são
sistemas diversificados. Quando você compara uma lavoura de soja em
monocultivo, o pacote tecnológico é completamente conhecido. Quando coloca um
sistema integrado como lavoura-pecuária-floresta, você passa a ter três
produtos numa mesma área, com diferentes prazos e ciclos”, disse.
Um
outro ponto, segundo a agrônoma, é que os agricultores não conhecem essas
linhas diferenciadas. “O produtor até pode ter intenção de, por exemplo,
recuperar áreas de proteção permanente (APP), mas ainda não faz por questões
financeiras. E ainda tem a indefinição de decisões sobre o novo Código
Florestal e a burocracia ambiental, que assustam esse produtor”, disse a
assessora.
A
solução, na opinião de Léa Vaz Cardoso, está em investimentos em capacitação e
na divulgação e promoção de tecnologias. A agrônoma ainda defende que os
benefícios “verdes” sejam ampliados dentro de linhas de crédito tradicionais,
incluindo uma espécie de “reconhecimento e premiação” aos agricultores que
conservam ou recuperam APPs, por exemplo.
“O
agricultor incorre em um custo ao preservar essas áreas. A gente está com uma
legislação que está preste a mudar, mas o comando-controle sozinho não é
suficiente. O instrumento econômico é complementar à legislação. E não há mal
algum, na nossa visão, ajudar o agente econômico a cumprir a lei”, disse Léa
Cardoso.
Ainda
faltam três meses para o fim do ano agrícola (2011/2012), mas o Banco do Brasil
já contabiliza R$ 430 milhões desembolsados. Em toda a safra anterior, o banco
desembolsou pouco mais de R$ 230 milhões. A agrônoma do ISA considera que o
incremento é resultado de uma ação maior do agente financeiro e do governo, mas
alerta que o valor “ainda é marginal em relação aos outros créditos. Estamos
falando em quase R$ 500 milhões para linhas sustentáveis, sendo que já foram
emprestados mais de R$ 70 bilhões para outras práticas, ou seja, menos de 1% na
conta”.
O
diretor de Agronegócios do Banco do Brasil, Clênio Severio Teribele, não
acredita na insegurança dos produtores brasileiros. “Basta verificar o
crescimento da produtividade no Brasil, que a gente atribui a competência dos
nossos agropecuaristas”, disse. Mas o executivo do banco admite o
desconhecimento do crédito e a falta de capacitação para a tomada do
financiamento.
“O
que a gente percebe é que o mercado ainda não conhece essas linhas. Temos
dificuldade na obtenção de bons projetos. A assistência técnica não chega a
todos os locais e precisamos que chegue”, disse Teribele, acresentando que o
banco está investindo em uma rede de parcerias com cooperativas, agrônomos e
técnicos, para o treinamento para elaboração de projetos. “Temos todos os
motivos para acreditar no bom desempenho dessas linhas”, disse.
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