Enquanto o governo se gaba das credenciais
ambientais do Brasil para sediar a conferência Rio +20, o czar da
biodiversidade das Nações Unidas, o paulista Bráulio Dias, propõe humildade: o
país deveria se inspirar na Costa Rica para resolver as contradições entre
ambiente e desenvolvimentismo.
Dias deixou em fevereiro o posto de secretário de
Biodiversidade e Florestas do Ministério do Meio Ambiente para assumir a
secretaria-executiva da Convenção da Diversidade Biológica da ONU, em Montreal.
De acordo com ele, a Costa Rica conseguiu triplicar
o seu PIB e dobrar sua área de florestas mudando suas políticas. "Falta ao
Brasil conseguir fazer essa virada."
Embora tenha evitado criticar diretamente políticas
ambientais do governo Dilma, como a Medida Provisória que reduz sete parques na
Amazônia para acomodar hidrelétricas, Dias afirma que "o fato de ser
energia renovável não quer dizer que esteja sendo feito da maneira mais
sustentável possível".
Segundo ele, o país tem condições de gerar energia
sem mexer em suas florestas.
De passagem pelo Brasil na semana passada, Dias conversou com
a Folha.
A Rio+20 não vai tratar de
biodiversidade. É uma oportunidade perdida?
Bráulio Dias - Houve uma
decisão, que eu entendo consciente, de que aqueles grandes temas ambientais que
já têm fórum próprio, como a Convenção da Diversidade Biológica, não
necessitariam de atenção especial nessa conferência. A convenção vem de um
resultado bem-sucedido na última conferência, a COP-10 [em Nagoya, Japão, em
2010], em que foi aprovado um plano estratégico para 2011-2020 com 20 metas
globais.
A agenda internacional de biodiversidade está dada. E conseguimos fechar o
Protocolo de Nagoya sobre recursos genéticos, resultado do mandato da
conferência de Johannesburgo, em 2002. É um exemplo de como uma conferência de
caráter mais geral pode ter impacto numa agenda temática específica.
Qual é a previsão de entrada em vigor do protocolo?
Ele precisa de 50 ratificações. Hoje já temos três ratificações e 90 e poucos países
que assinaram cartas de compromisso, o Brasil foi um dos primeiros. Mas os
países precisam remeter isso a seus Congressos nacionais, o que pode demorar
alguns anos.
A ideia é usar a Rio +20 para impulsionar a ratificação?
Isso, é uma chamada, uma pressão política.
De que jeito?
Através de declarações dos países e de uma menção no texto da conferência da
necessidade de uma renovação do compromisso dos países pela ratificação do
protocolo. E isso vários países estão colocando, o que é muito bom.
A COP-11, este ano, na Índia, vai tratar majoritariamente de
dinheiro. Existe um risco de a discussão naufragar?
Existe, e essa é uma das minhas maiores preocupações como secretário-executivo.
Em Nagoya, a discussão foi muito difícil, as delegações chegaram com muitas
desconfianças, os europeus queriam garantir a necessidade de envolver o setor
privado, aí os países da Alba [aliança liderada pela Venezuela] reagiram e
houve um impasse.
Como o Brasil está nessa questão de dinheiro em relação a outros
países do seu porte?
Gasta-se cerca de meio bilhão de reais por ano no Brasil em unidades de
conservação em todos os níveis --União, Estados, municípios-- e estima-se que,
para implementar eficazmente todas as unidades, seria necessário pelo menos o
dobro. O Brasil ainda não definiu seu nível de compromisso porque estamos no
meio da discussão da revisão da estratégia nacional de biodiversidade.
De que jeito a discussão do Código Florestal pode atrapalhar esse
debate?
Há conflitos de interesse reais, que dificultam você chegar a uma estratégia
nacional. Ouvimos setores desenvolvimentistas, lideranças mais dispostas a
conversar, sabendo que a médio e longo prazo é preciso caminhar nessa direção,
até mesmo para o sucesso do setor desenvolvimentista: você pode criar barreiras
para a exportação dos produtos que degradem a natureza.
8O sr., como brasileiro que agora dirige um organismo
internacional, tem sentido pressões em relação ao Código Florestal?*
Há preocupações em toda parte lá fora. O Brasil é vitrine nessa área. Se nos
anos 1980 o Brasil só era olhado como vilão, mais recentemente é visto também
como modelo para alcançar um desenvolvimento mais sustentável. Está todo mundo
de olho para ver se não vai haver retrocessos.
O Brasil, no primeiro ano de governo Dilma, não criou nenhuma área
protegida e baixou uma Medida Provisória determinando a redução de sete áreas
na Amazônia para acomodar hidrelétricas. Como o sr. enxerga isso?
Não me cabe ficar comentando política interna de país nenhum. Obviamente nos
preocupa toda essa dificuldade, esses embates no mundo inteiro entre interesses
desenvolvimentistas de curto prazo e objetivos de sustentabilidade.
Existem alguns países que conseguiram fazer uma virada. A Costa Rica é um
deles. Aconteceram avanços lá porque foram tomadas medidas não só na esfera
ambiental mas num âmbito de políticas públicas em geral, especialmente em
instrumentos econômicos. E a Costa Rica conseguiu praticamente dobrar sua área
florestal. Ao mesmo tempo, a renda per capita do país triplicou.
O sr. está dizendo que o Brasil tem condições de gerar energia sem
mexer em floresta?
Eu acredito que sim, que o Brasil tem condição de ampliar o fornecimento de
energia, ampliar os esforços de desenvolvimento e ao mesmo tempo conseguir
conservar o que ele tem de patrimônio natural. O que falta talvez ao Brasil é
conseguir fazer essa virada, como na Costa Rica.
Do ponto de vista das
metas de Nagoya, é inconsistente o Brasil reduzir áreas protegidas para fazer
hidrelétricas?
Cada país tem de tomar suas decisões sobre matriz energética. O Brasil é tido
como um dos países com matriz energética mais renovável entre as grandes
economias porque usa mais hidrelétricas, lenha, biocombustível. Agora, o fato
de ser energia renovável não quer dizer que esteja sendo feito da maneira mais
sustentável possível.

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